O AMANHECER DO EVANGELHO

EVANGELHO DO DIA E HOMILIAREFLEXÕES E ILUSTRAÇÕES DE PE. LUCAS DE PAULA ALMEIDA, CM

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM -ANO B

PELO CAMINHO DA CRUZ

O evangelho que a Liturgia nos oferece na Mesa da Palavra deste vigésimo quarto domingo do Tempo Comum se compõe de dois quadros que se contrapõem vivamente um ao outro; e termina com uma solene proclamação de Jesus a respeito das condições para segui-lo.No primeiro quadro, São Pedro faz uma fervorosa declaração de que Jesus é o Messias. O Mestre havia perguntado aos discípulos qual era a opinião do povo a respeito dele. E apareceram as várias respostas: uns achavam que Ele era João Batista redivivo; outros achavam que era Elias, o qual, segundo uma tradição popular, não tinha morrido, e devia voltar no fim dos tempos para ungir o Messias; outros achavam que era Jeremias, um dos grandes protetores do povo israelita e que teria reaparecido; outros, enfim, achavam que Ele era algum outro dos antigos profetas. “Mas vós – perguntou Jesus – quem dizeis que eu sou?” Foi quando Pedro, como que fazendo-se porta-voz de todos, proclamou: “Tu és o Messias” (Mc 8, 29). Esta resposta está nos três sinópticos, sendo mais completa em Mateus: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16, 16). É tão feliz esta confissão de Pedro, que Jesus lhe disse que ela não vinha de revelação da carne e do sangue – não vinha simplesmente da sabedoria humana – mas era revelação do Pai que está nos céus (ibid., v 17).Mas agora vem o segundo quadro. A fim de impedir que seu messianismo fosse entendido no sentido político, de um Messias que iria assumir o trono de Davi e debelar os inimigos da nação e libertá-Ia do jugo dos romanos, Jesus apontou-lhes o que estava predito em Isaías, onde se lê – no capítulo 53 – um verdadeiro proto-evangelho da Paixão: “Era preciso que o Filho do homem padecesse muito e fosse rechaçado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, morresse e ressuscitasse depois de três dias” (Mc 8, 31 ).E o evangelista sublinha que Jesus falou disso claramente. Foi quando Pedro, mudando completamente a atitude anterior, tomando-o à parte, começou a repreendê-Io de maneira veemente: “Deus não permita que isso aconteça! ” (Mt 16, 22). Mas Jesus, olhando para todos os discípulos, repreendeu a Pedro, dizendo: “Retira-te de mim, satanás, pois não entendes das coisas de Deus, mas das coisas dos homens” (Mc 8, 33).Pedro, que, inspirado por Deus, proclamara que Jesus era o Messias, deixa-se levar agora por uma visão muito humana, e se transforma em “satanás”, isto é, no tentador que quer afastar Cristo de sua legítima missão. Daí a severidade da repreensão de Jesus.E tudo se conclui com a solene proclamação de Jesus sobre uma condição básica que deve ser abraçada por quem quiser segui- lo: “Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (ibid., v 34). Ele ia morrer crucificado, e a cruz iria ficar sendo o símbolo de todo o sofrimento que o cristão deve estar disposto a abraçar.Entra aqui toda a sublime filosofia do sofrimento na vida humana. Cristo não veio tirar as cruzes do nosso caminho. Nem prometeu livrar-nos dos sofrimentos inerentes à nossa caminhada.

Mas, ao morrer na cruz, veio dar-Ihes um sentido muito alto e muito nobre. Pela cruz Ele remiu o mundo. Pela cruz nós colaboramos na redenção do mundo, como nos ensina São Paulo, lá onde diz que se alegra nos seus sofrimentos, porque assim completa na sua carne o que falta das tribulações de Cristo. Não que a Paixão de Cristo fosse insuficiente para a remissão do mundo, mas porque é disposição de Deus que nós nos associemos ao seu sofrimento (cfr CI 1, 24).

E Jesus termina dizendo: “Quem quiser salvar sua vida, perdê-la-á; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, salvá-la-á” (Mc 8, 35).Cristo e o Evangelho merecem o nosso sacrifício. Quem estiver disposto a sacrificar tudo por amor de Cristo, ganhará tudo. Ao passo que o egoísmo é estéril. Quem se fechar dentro dele, perderá tudo. A renúncia é o caminho da vida eterna: “Per crucem ad lucem”, isto é, pela cruz se alcança a luz.

LEITURAS do XXIV Domingo do Tempo Comum -Ano B:

1ª – Is 50, 5-9a.

2ª – Tg 2, 14-18.

3ª – Mc 8, 27 -35.

EVANGELHO DO DIA E HOMILIA

(LECTIO DIVINA)

REFLEXÕES E ILUSTRAÇÕES DE PE. LUCAS DE PAULA ALMEIDA, CMXXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM -ANO B

Mc 8, 27-35

Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si mesmo e me siga”Como evangelho de hoje, temos a história do caminho de Cesaréia de Felipe. Embora de grande importância também em Mateus e Lucas, o relato mais original está no evangelho de Marcos, Cap. 8, o qual se torna o pivô de todo o Evangelho.A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “quem dizem os homens que eu sou?” Assim, chovem respostas, pois esta pergunta não compromete – é o “diz que…” Mas a segunda pergunta traz a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: Tu és o Messias. Aparentemente, Pedro acertou, e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é importante que continuemos a leitura pelo menos até o v. 35, porque o assunto é mais complicado do que possa parecer.Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos.Usando o título messiânico Filho de Deus” – que vem de Daniel 7, 13ss – Jesus confirmou que era o Messias, mas não o Messias que Pedro quis. Este, conforme as expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores, até a Cruz. Por isso, Pedro contesta Jesus, pedindo que nada disso acontecesse. E como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia: Afasta-se de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (v. 33). Pedro, cuja proclamação de fé parecia ser tão acertada, é agora chamado de Satanás – o Tentador por excelência! Pedro tinha os títulos certos, mas a prática errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia mas não ortopraxis!E assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 34). Ter fé em Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, o seguimento d’Ele na construção do seu projeto, até às últimas consequências.Hoje, dois mil anos depois, a pergunta de Jesus ressoa forte – a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o Bispo, mas para cada um de nós pessoalmente? No fundo a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus – Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente (Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina e a teoria certas, mas a prática errada!LEITURAS do XXV Domingo do Tempo Comum – Ano B :

1a – Sb2, 17-20.

2ª – Tg 3, 16-4, 3.

3a- Mc 9, 29-36.