EVANGELHO DO DIA E HOMILIA

(LECTIO DIVINA)

REFLEXÕES E ILUSTRAÇÕES DE PE. LUCAS DE PAULA ALMEIDA, CM

” MULHER, GRANDE É A TUA FÉ ”. 

“Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres.” (Mateus 15, 21-28)

Saindo daquele lugar, Jesus retirou-se para a região de Tiro e de Sidom.

22Uma mulher cananeia, natural dali, veio a ele, gritando: “Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Minha filha está endemoninhada e está sofrendo muito”.

23Mas Jesus não lhe respondeu palavra. Então seus discípulos se aproximaram dele e pediram: “Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós”.

24Ele respondeu: “Eu fui enviado apenas às ovelhas perdidas de Israel”.

25A mulher veio, adorou-o de joelhos e disse: “Senhor, ajuda-me!” 26Ele respondeu: “Não é certo tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.  27Disse ela, porém: “Sim, Senhor, mas até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”. 28Jesus respondeu: “Mulher, grande é a sua fé! Seja conforme você deseja”. E, naquele mesmo instante, a sua filha foi curada.

A Fenícia dos tempos de Jesus corresponde praticamente ao Líbano de hoje, marcado, entre outras, pelas cidades portuárias de Sur e Saída, que correspondem às antigas cidades de Tiro e Sídon. Era região de grande prosperidade, e lá habitavam os cananeus. Jesus andou também por lá, como se deduz de uma passagem de Mateus com paralelo em Marcos (Mt 15,21 e Mc 7,24). E, por isso mesmo os libaneses se comprazem em dizer que seu país faz parte da Terra Santa. Bem-aventurados os caminhos um dia percorridos pelos passos do Senhor!

Justamente nessa terra aconteceu o episódio que a Igreja faz ler na liturgia da Palavra deste vigésimo domingo do Tempo Comum. É uma página muito viva, que parece, até, traduzir em termos bem rudes para nossos ouvidos ocidentais o que Jesus falou. Que, porém, se ilumina no fim com a grandeza da misericórdia e do poder taumatúrgico do Divino Mestre.

O Evangelho conta que, estando Jesus numa casa, foi à sua procura uma mulher Cananéia, para pedir a cura de sua filha, uma menina que estava – segundo ela – sob o poder do demônio.

E ela o pedia em gritos tão insistentes e angustiosos, que chegaram a impacientar os apóstolos, os quais pediram a Jesus que a atendesse logo, para que ela os deixasse em paz. O que a mulher pedia em gritos tão insistentes já denotava confusamente alguma fé: “Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! A minha filha está horrivelmente endemoninhada” (Mt 15,22).

Jesus começou, recusando. Sua missão pessoal- embora a Igreja se devesse depois estender a todo o mundo – se restringia ao povo de Israel. Ela, porém, insistia: “Senhor, socorre-me!” (Ibid.,v25).

Mas Jesus replicou: “Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos” (Ibid., v 26). A redação de Marcos é mais amenizada: “Deixa que primeiro os filhos se saciem; pois não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos” (Mc 7,27). Era uma aparentemente dura pedagogia, que visava, no entanto, fazer desabrocharem plenitude a fé que já se manifestava naquela pobre mulher.

Ai veio a resposta da mulher, marcada por uma comovedora humildade, e por uma confiança que se poderia dizer audaciosa: “É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem debaixo da mesa a migalhas das crianças (Ibid., v 28). Foi quando a misericórdia e o poder de Jesus como que explodiram numa solene palavra de aprovação e de bênção: “mulher grande é a tua fé! Seja feito como queres” (Mt 15,28).

E assim foi. Ela voltou para casa e encontrou a criança atirada tranquilamente sobre o leito. E seu nome, através das páginas do Evangelho, começou a percorrer o mundo, como um dos mais belos exemplos de fé inabalável.

Diante desse fato, não é possível não lembrar o exemplo de Abraão. Deus lhe prometera que seria pai de uma imensa posteridade, mais numerosa do que as estrelas do céu e do que as areias das praias do mar. E, no entanto, um dia, inexplicavelmente, mandou que ele sacrificasse seu filho Isaac, no alto do Monte Moriá. E Abraão não duvidou em acolhera ordem de Deus. “Acreditou contra toda a esperança”, diz a carta aos romanos (Rm 4,18). Deus lhe deteve o braço na hora de consumar a imolação de seu herdeiro, e ele se tornou o pai de gerações sem conta.

O segredo de nossa felicidade está em jamais duvidar da sabedoria e da bondade de Deus. Ainda que às vezes os caminhos se nos apresentem muito obscuros. Temos sempre que repetir aquela palavra que a sabedoria popular repete a cada momento: Deus sabe o que faz. Essa foi a atitude da mulher cananéia, diante da palavra aparentemente negativa de Jesus. Ela também acreditou contra toda a esperança. E assim devemos crer também.

“Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres.” (Mateus 15, 21-28)

Mateus 15,21-28: O encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia

A situação retratada no texto de Mt 15,21-28 parece ser uma realidade de conflito nas comunidades daquele tempo, provocada por atitudes discriminatórias de judeus para com estrangeiros e para com mulheres. O relato fala do encontro de Jesus com uma mulher estrangeira.

Naquela época, os estrangeiros significavam algo detestável no pensamento dominante em Israel. Apesar de as tradições ancestrais mostrarem a necessidade de oferecer proteção aos estrangeiros, o judaísmo hegemônico no pós-exílio os considerava impuros, bem como uma ameaça por serem desconhecedores da lei e perturbadores da tranquilidade de Israel. Reprovava seus costumes, suas tradições e seus ritos. Em Mt 15,21-28, Jesus rompe fronteiras e se aproxima do território de Tiro. A situação era muito tensa, pois Jesus se encontra junto a terras estranhas e, ali, o seu primeiro encontro é com uma cananéia, considerada duplamente impura por ser mulher e por ser estrangeira.

O texto põe em evidência duas posições discordantes nas comunidades cristãs daqueles anos. Uma delas provém do mundo judeu e olha para as mulheres e os estrangeiros com atitude suspeita. A outra conduta é de quem procedia do mundo greco-romano e que tem uma visão mais aberta, com influência de mulheres e de estrangeiros, sendo-lhes mais favorável.
É interessante que, na narrativa, Jesus aparece como homem judeu, representante do discurso e da mentalidade dominante de seu povo, dirigindo-se à terra da mulher siro-fenícia, terra de impuros para o pensamento preponderante no judaísmo. Segundo Mc 7,24, Jesus quer ocultar-se, manter-se fora do alcance das pessoas daquele lugar, talvez para manter sua pureza ritual. Mas, ele não consegue permanecer oculto, pois logo vem ao seu encontro uma mulher estrangeira, duplamente condenada pela mentalidade que ele representa.
 A primeira atitude de Jesus é a conduta e a mentalidade excludente de judeus que não atendem e não se sensibilizam diante da necessidade de uma mãe com sua filha doente. O interesse de manter a pureza ritual impedia que ele se sensibilizasse e se solidarizasse com a mulher cananéia. Jesus silencia, não diz uma palavra sequer à mulher, apesar dos seus gritos de aflição. Diante de seu silêncio, os discípulos propõem uma saída ainda mais drástica, sugerindo a expulsão dela. Por fim, as palavras de Jesus representam o mesmo discurso que seguramente brotava da boca do setor judeu daquela comunidade: “Não fui enviado a não ser para as ovelhas perdidas de Israel. Não é conveniente tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorros.” (vv. 24.26). Para muitos judeus, estrangeiros/as não eram outra coisa que “cães” ou “porcos” (cf. Mt 7,6), provocadores de grandes calamidades para os filhos de Israel.


Chama a atenção a resposta da mulher siro-fenícia. Ela podia responder com diversas argumentações ou ficar simplesmente calada como sinal de reprovação diante da discriminação que sofre. Contudo, ela utiliza os mesmos termos de Jesus para fazê-lo repensar sua posição discriminatória: “É verdade, Senhor, mas também os cachorros comem das migalhas que caem da mesa de seus donos!” (v. 27). Pela boca da siro-fenícia falam as mulheres e os representantes gentios marginalizados naquelas comunidades cristãs. A ação da mulher é um símbolo do esforço dos cristãos de origem gentílica para expulsar o “demônio da exclusão” ainda reinante naquela ocasião. Através do personagem da mulher estrangeira, os gentios reclamam aceitação na nova comunidade de fé.

E a mudança de Jesus, ao passar a escutar os gritos de aflição da mulher estrangeira, tal como o Deus do êxodo (Ex 3,7-8), representa a nova atitude que as comunidades são chamadas a assumir. Quando Jesus se deixa interpelar pela excluída siro-fenícia e se abre para o diálogo com ela, sensibiliza-se com sua realidade e reconhece que o “pão” é direito de todos os filhos e filhas para além de Israel. Paradoxalmente, a enfermidade da filha da mulher estrangeira, considerada um mal e uma impureza na mentalidade predominante do judaísmo, torna-se um fator que humaniza e rompe com os opostos. Torna-se um símbolo de recuperação e de cura comunitária.

Esse relato do Evangelho representava um convite à comunidade cristã para assumir uma atitude nova de reciprocidade e receptividade para além do povo judeu. A luta por uma experiência social e religiosa de integração e respeito parece ser um dos objetivos desse texto. Da mesma forma, o Evangelho nos convida hoje a uma atitude nova de diálogo, de abertura e de fraternidade humana.

Jesus e a Mulher Cananéia

“Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres.” (Mateus 15, 21-28)

É muito difícil ouvir um não, torna-se ainda mais dolorido ouvir um não, quando você tem absoluta certeza de que seu pedido é justo. Nesta história do evangelho, a mulher Cananéia ouviu um não; e o que é pior, um não carregado de argumentos.

Mais duro que ouvir um “não” é ser ignorada, e isto também aconteceu com ela. Nas lutas das mulheres por conquistas no mundo do trabalho e na busca de direitos iguais na sociedade, temos percebido o quanto a palavra não é repetida e de quantas maneiras as mulheres recebem este não. Existem maneiras de reagir a um não: você pode se resignar e aceitar a resposta negativa, ou lutar por aquilo que você acredita e gritar. Eis o que a mulher Cananéia fez. Eis o seu exemplo e a sua história. A postura submissa desta mulher, o seu jeito de aproximar-se de Jesus, é somente uma parte de sua identidade. A sua petição e a sua insistência desafiam a identidade e missão de Jesus e confronta a ideologia imperialista de Israel. Ela exige que Jesus torne disponível para ela o que está disponível para Israel. Sua petição não é para ela, mas para Jesus libertar sua filha das forças que a oprimem.

Jesus não responde com ajuda instantânea, mas com silêncio. Não é dado nenhum motivo, entretanto, os fatores étnicos, culturais, religiosos, econômicos e políticos, como também seu gênero, sugerem numerosas razões para Jesus ignorá-la. Num segundo momento Jesus afirma: “Não é bom tirar o pão dos filhos e dá-los aos cachorrinhos”.

Mesmo depois de ter recebido uma resposta negativa, sem amedrontar-se, a mulher se ajoelha diante de Jesus e clama por socorro. Junto com a sua submissão ela pede novamente e continua, audaciosamente, desafiando uma ideologia de favoritismo. Ela reclama o seu lugar nos propósitos de Deus.

Aqui se concentra a força desta história: a mulher não é intimidada pela resposta de Jesus. Ao invés, ela, com astúcia e corajosamente reformula a resposta de Jesus: “Também os cachorrinhos comem das migalhas que caem das mesas dos seus donos”. A resposta dela se move além das barreiras da divisão étnica, cultural, religiosas, de gênero e política, para as possibilidades que permanecem firmes às promessas de Deus de abençoar todas as nações da terra.

A resposta engenhosa da mulher abre possibilidades para sua filha e para Jesus. Ele responde positivamente e realiza o pedido daquela mulher. Esta história nos dá uma grande lição, assim como deu uma grande lição a Jesus e seus discípulos. Não podemos nos enclausurar dentro de nossos conceitos e preconceitos, sem perceber a realidade ao nosso redor. É preciso parar e ouvir o que as mulheres, as mães, as pessoas, estão pedindo; mesmo que pareça incoerente, mesmo que incomode, mesmo que seja preciso mudar as regras…O Dia Internacional da Mulher é um dia especial de lembrar a luta de tantas mulheres que, ao ouvirem um não, persistiram e lutaram para conquistar o que queriam.