31. Quinta-feira - CORPO E SANGUE DE CRISTO

EVANGELHO DO DIA E HOMILIA (LECTIO DIVINA).

REFLEXÕES E ILUSTRAÇÕES DE PE. LUCAS DE PAULA ALMEIDA, CM

CORPO E SANGUE DE CRISTO

1) Oração

Senhor Jesus Cristo, neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão. Dai-nos venerar com tão grande amor o mistério do vosso Corpo e do vosso Sangue, que possamos colher continuamente os frutos da vossa redenção. Vós, que sois Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo.

2) Leitura do Evangelho (Marcos 14, 12-16.22-26)

No primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento, em que os judeus matavam carneirinhos para comemorarem a Páscoa, os discípulos perguntaram a Jesus:
– Onde é que o senhor quer que a gente prepare o jantar da Páscoa para o senhor?
Então Jesus enviou dois discípulos com a seguinte ordem: – Vão até a cidade. Lá irá se encontrar com vocês um homem que estará carregando um pote de água. Vão atrás desse homem e digam ao dono da casa em que ele entrar que o Mestre manda perguntar: “Onde fica a sala em que eu e os meus discípulos vamos comer o jantar da Páscoa?” Então ele mostrará a vocês no andar de cima uma sala grande, mobiliada e arrumada para o jantar. Preparem ali tudo para nós.
Enquanto estavam comendo, Jesus pegou o pão e deu graças a Deus. Depois partiu o pão e o deu aos discípulos, dizendo:
– Peguem; isto é o meu corpo.
Em seguida, pegou o cálice de vinho e agradeceu a Deus. Depois passou o cálice aos discípulos, e todos beberam do vinho. Então Jesus disse:
– Isto é o meu sangue, que é derramado em favor de muitos, o sangue que garante a aliança feita por Deus com o seu povo. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: nunca mais beberei deste vinho até o dia em que beber com vocês um vinho novo no Reino de Deus.
Então eles cantaram canções de louvor e foram para o monte das Oliveiras.

3) Reflexão

* A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo papa Urbano IV em 11 de agosto de 1264, em vista de destacar a dimensão sacramental que a tradição romana associou à última ceia de Jesus, já celebrada na semana santa.

* A ceia é um momento de alegria, partilha e comunhão. Descartando a manducação do cordeiro pascal, Jesus apresenta-se como o pão que dá a vida, e o vinho que alegra a todos, inaugurando a nova celebração do Reino de Deus. A Eucaristia é a celebração da comunidade viva, animada pelo Espírito, unida em torno de Jesus, empenhada em cumprir a vontade do Pai, que é vida para todos.
* A Eucaristia pertence a três grandes destinatários. Antes de tudo, a toda a humanidade. Na narrativa da instituição, o sacerdote repete as palavras de Jesus sobre o cálice do sangue, sinal da nova e eterna aliança, o qual foi derramado por todos para a remissão dos pecados. A doação de Cristo a todos no gesto da cruz, renovada no sacramento da Eucaristia, significa que ela se faz dom para a humanidade. Teilhard de Chardin avança mais longe. Na Missa sobre o mundo, vê a Eucaristia em ligação com o gigantesco processo cósmico evolutivo de bilhões de ano.
* Os cristãos acreditam que o ato de entrega de Cristo na cruz se faz presente no sacramento eucarístico. A Eucaristia, portanto, renova sob sinais visíveis o amor infinito de Cristo, levado ao grau extremo na doação de sua vida. Em qualquer lugar em que se celebre o mistério eucarístico, o cristão se sente em casa. Aí vê realizado de modo misterioso nos sinais do pão e do vinho o maior mistério de amor acontecido na história humana por parte do próprio Filho de Deus.
* Nessa fé se baseia o ecumenismo. Pouco a pouco, caminhamos para a grande intercomunhão entre todos os cristãos na Eucaristia. Porque nela se realiza o mistério da Reconciliação de todo pecado, de toda separação, de toda divisão pela força mesma da graça. O Concílio de Trento reafirmou a doutrina bíblica da reconciliação pela a cruz e ressurreição do Senhor e da sua presencialização na Eucaristia.
* No entanto, ela, já antecipada pela natureza mesma da Eucaristia, ainda não se fez história. A Igreja católica se entende como a principal ministra dessa Eucaristia, cabendo-lhe a missão de velar e zelar pelas condições de sua realização. Ainda não conseguimos resolver o impasse ecumênico com todos os cristãos e muito menos com toda a humanidade, no sentido etimológico do término. Oikoumenos, em grego, deu ecúmeno em português, que, segundo Houaiss, significa “área geográfica que é permanentemente habitada pelo homem”. Jesus e todo cristão sonham que a Eucaristia se torne alimento de todos os humanos.
* O trabalho ecumênico consiste, por conseguinte, no duplo movimento. Teologicamente, mostrando a ecumenicidade, a universalidade da Eucaristia, como dom a toda humanidade. Pastoralmente, criando as condições e os passos para a intercomunhão entre todos os cristãos e depois entre todos os humanos que reconhecerem como todo o processo evolutivo, de hominização e de humanização, encontra no Cristo cósmico, o príncipio e o fim. Jesus eucarístico significa, portanto, Alfa e Ômega de toda realidade.

4) Para confronto pessoal

1) Como vivencio a Eucaristia?
2) Compreendo que a Eucaristia pertence à toda humanidade?

5) Oração final

Dai-nos, Senhor Jesus, possuir o gozo eterno da vossa divindade, que já começamos a saborear na terra, pela comunhão do vosso Corpo e do vosso Sangue. Vós, que viveis e reinais para sempre. Por Cristo, nosso Senhor.

SANTISSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO - "CORPUS CHRISTHI

EVANGELHO DO DIA E HOMILIA (LECTIO DIVINA).

REFLEXÕES E ILUSTRAÇÕES DE PE. LUCAS DE PAULA ALMEIDA, CM

O PÃO VIVO DESCIDO DO CÉU

A festa do Santíssimo Sacramento, nascida no século XIII, é um festivo desdobramento da celebração desse mistério na Quinta- feira Santa. Nesse dia, a Igreja, como que recolhida na lembrança da Paixão e Morte do Senhor, não se pôde expandir em gloriosos hinos de júbilo. É o que ela faz agora, na primorosa liturgia desta festa, tradicionalmente conhecida como “Corpus Christi”.
E é na verdade o que merece o mistério da Eucaristia, fonte e ápice da vida cristã, centro e cume de toda a vida da comunidade da Igreja, como foi proclamado de mil maneiras pela constituição “Sacrosanctum Concilium” do Vaticano II.
De algum modo a revelação da Eucaristia tem sua aurora no Êxodo, quando Deus mandou do céu o maná para saciar a fome do povo hebreu no “deserto. Os hebreus se lembraram sempre desse prodígio e não se cansavam de louvar a Deus que os alimentara com esse “pão do céu”. É o que aparece em mil lugares da Bíblia, como, por exemplo, nesta passagem, bem marcada por ampliação poética, do livro da Sabedoria: “Nutriste teu povo com alimento dos anjos, e do céu lhe deste, sem nenhum trabalho, um pão já pronto, capaz de proporcionar todas as delícias e satisfazer a todo gosto” (Sb 16, 20). Aliás é este o texto em que se inspirou a Igreja para formular o louvor de Deus na bênção do Santíssimo Sacramento.

Um dia, em Cafarnaum, depois do milagre da multiplicação dos pães, os judeus pediam a Jesus que realizasse um sinal do céu que mostrasse sua autoridade. E se referiam – como que provocativamente – ao milagre do maná que Deus dera a seus pais no deserto. O desafio levou Jesus a pronunciar um precioso discurso, no qual estão as grandes palavras que abrem a revelação do mistério da Eucaristia. Primeiro Ihes disse:

“Em verdade, em verdade, vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo”. E, como os judeus pediam que Ihes desse pão, Ele acrescentou: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome, e quem crê em mim, nunca mais terá sede” (Jo 6, 32-35). E um pouco mais adiante: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem come deste pão viverá eternamente. O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Ibid., v 51 ).
Tais palavras suscitaram vivíssima controvérsia, que levou até muitos discípulos, a se afastarem de Jesus, como se Ele estives- se dizendo coisas absurdas, anunciando – pensavam eles talvez – algum macabro ritual de antropofagia. Jesus porém, reafirmou com toda a clareza: “Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós” (v 52). E acrescentou outras palavras semelhantes, pelas quais ficou afirma- do que, de algum modo misterioso, Jesus ofereceria seu corpo e seu sangue em alimento.
Jesus não ia dar seu corpo e seu sangue na realidade físico- química. Ia dá-Ios sob os sinais do pão e do vinho, na realidade do corpo espiritualizado, a que podemos chamar de realidade transfísica. Foi o que Ele fez na Última Ceia, na véspera de sua Paixão, quando instituiu o sacramento da Eucaristia. Tomou o pão, abençoou-o e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo. ‘Fazei isto em memória de mim”. Da mesma forma, tomou o vinho e, dando graças, o distribuiu, dizendo: “Tomai e bebei, este é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado em favor de vós. Toda vez que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (cfr. Mt, 26, 26ss; e lugares paralelos dos outros sinópticos; como também 1 Cor 10, 23-27).
E a Igreja, desde seus primeiros dias, celebra sempre esse mistério, com o nome de “fração do pão”, mais tarde “missa” e “eucaristia”. São Paulo um dia pergunta: “O cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão com o sangue de Cristo? 0 pão que partimos não é a comunhão com o corpo de Cristo ?” ( 1 Cor 10, 16).
A celebração de Corpus Christi é a perene glorificação de tudo isso. Para nutrir nossa fé e suscitar nossa gratidão pelo inefável dom de Deus. “Quão solene a festa, o dia -Que da santa Eucaristia – nos recorda a instituição” ( Lit. ).